"Quase sempre passa, não passa nunca."
"A cadeira de balanço rangia enquanto pendia, lentamente,
para frente e depois para trás. O velho álbum de fotografia já estava amarelado
e suas folhas pareciam resistir firmemente o impacto do tempo. Dentre tantas, havia
ali uma fotografia datada em 13 de maio de 1963, que trazia um casal sorridente.
A moça de tão branca mais se assemelhava a uma porcelana chinesa, os cabelos
negros modelavam perfeitamente seu rosto, que parecia ter sido minuciosamente
delineado... Seus olhos negros e profundos combinavam perfeitamente com o nariz
fino, e este por fim, com sua boca tão cheia e rosada. O rapaz alto e esbelto,
cabelos igualmente negros e pele branca, tinha sobrancelhas grossas e até um
pouco carrancudas, que contrastavam levemente com seu sorriso torto. Só de
fitar aquele sorriso meu corpo estremecia.
O que meus pais diziam – É só uma
paixonite boba! Passa logo! – ainda ecoavam em minha mente. Cinquenta anos
depois eu ainda esperava o tal “logo” chegar. Eu deixara o amor da minha vida escapar por
entre meus dedos, quando era tão fácil, simplesmente fechá-los e não soltar
mais. Eu era nova demais, inocente demais para um amor proibido. E o que eu
sentira era tão forte que, tanto tempo depois, ainda haviam resquícios guardados
no fundo mais secreto da minha alma. Sentada ali fora, o vento ricocheteava meu
rosto – tomado pelas rugas, indícios do tempo passado – e fazia voar meus cabelos - agora um tom cinza claro – me lembrava da
ultima vez que nos vimos. Debaixo de uma figueira onde prometi o encontrar no
dia seguinte, para fugirmos. Onde eu nunca mais estive. Fiquei a mercê do meu
próprio destino, rezando a tudo que é santo para acordar logo daquele imenso
pesadelo e o ter em meus braços novamente. Pedido nunca atendido. Meu amor veio
de uma época em que se amava de mãos dadas na praça, ou sentados no sofá da sala,
debaixo dos olhares atentos dos pais... Meu amor se foi quase tão depressa
quanto chegou. Recebi a notícia ontem, por um conhecido, de que meu amor não volta
mais. Meu amor morreu. E eu não pude nem me despedir. Pudera eu estar debaixo
daquela figueira novamente..."
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