sexta-feira, 1 de março de 2013

"Quase sempre passa, não passa nunca."

"A cadeira de balanço rangia enquanto pendia, lentamente, para frente e depois para trás. O velho álbum de fotografia já estava amarelado e suas folhas pareciam resistir firmemente o impacto do tempo. Dentre tantas, havia ali uma fotografia datada em 13 de maio de 1963, que trazia um casal sorridente. A moça de tão branca mais se assemelhava a uma porcelana chinesa, os cabelos negros modelavam perfeitamente seu rosto, que parecia ter sido minuciosamente delineado... Seus olhos negros e profundos combinavam perfeitamente com o nariz fino, e este por fim, com sua boca tão cheia e rosada. O rapaz alto e esbelto, cabelos igualmente negros e pele branca, tinha sobrancelhas grossas e até um pouco carrancudas, que contrastavam levemente com seu sorriso torto. Só de fitar aquele sorriso meu corpo estremecia.
 O que meus pais diziam – É só uma paixonite boba! Passa logo! – ainda ecoavam em minha mente. Cinquenta anos depois eu ainda esperava o tal “logo” chegar.  Eu deixara o amor da minha vida escapar por entre meus dedos, quando era tão fácil, simplesmente fechá-los e não soltar mais. Eu era nova demais, inocente demais para um amor proibido. E o que eu sentira era tão forte que, tanto tempo depois, ainda haviam resquícios guardados no fundo mais secreto da minha alma. Sentada ali fora, o vento ricocheteava meu rosto – tomado pelas rugas, indícios do tempo passado – e fazia voar meus cabelos  - agora um tom cinza claro – me lembrava da ultima vez que nos vimos. Debaixo de uma figueira onde prometi o encontrar no dia seguinte, para fugirmos. Onde eu nunca mais estive. Fiquei a mercê do meu próprio destino, rezando a tudo que é santo para acordar logo daquele imenso pesadelo e o ter em meus braços novamente. Pedido nunca atendido. Meu amor veio de uma época em que se amava de mãos dadas na praça, ou sentados no sofá da sala, debaixo dos olhares atentos dos pais... Meu amor se foi quase tão depressa quanto chegou. Recebi a notícia ontem, por um conhecido, de que meu amor não volta mais. Meu amor morreu. E eu não pude nem me despedir. Pudera eu estar debaixo daquela figueira novamente..."

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